Será que há maneira de eu voltar a ser esta pessoa?

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Encontrei isto enquanto arrumava gavetas e senti o coração a entrar em degelo. Eu já fui uma pessoa assim, caraças. Já fui uma pessoa que preparava surpresas ao pormenor, decidia (e fazia) prendas com antecedência, dedicava parte do meu dia a pensar em formas de meter a sorrir aqueles de quem gostava. Já fui uma pessoa que organizava festas temáticas, jantares, noitadas de jogos. Só porque sim, só porque isso me fazia tão feliz (ou mais) a mim como os outros.

Ainda gosto de o fazer. Mas acontece pouco, muito pouco. Eu já fui uma pessoa da união, uma pessoa que só estava completa em grupo e estou cada vez mais a tornar-me um ser da solidão. E pior, a sentir-me bem com isso.

Encontrei este pedaço de papel numa gaveta e o coração está-me na boca porque é como ver reflectido no espelho um eu que já foi melhor. Ou pelo menos que já soube cuidar muito melhor. É isso e a minha melhor amiga, que está longe e de quem gosto às montanhas, fazer anos para a semana e eu ainda não ter começado a preparar-lhe o miminho.

Se é a isto que chamam envelhecer e ter responsabilidades, só tenho uma coisa a dizer: bela merda.

Os livros

a máquina de fazer espanhóisHoje é o dia deles. E a máquina de fazer espanhóis de Valter Hugo Mãe está entre os meus cinco livros de eleição. Terminei-o há uns meses e já digerida a história, já passada a nódoa negra do murro que este livro nos dá, digo que este senhor não é um dos melhores escritores portugueses contemporâneos. Valter Hugo Mãe é um dos melhores escritores contemporâneos, ponto. É um dos melhores escritores de sempre. E é nosso. Todinho nosso. Escreve em português, sobre uma realidade que nos é próxima, os seus personagens são os nossos personagens, arrancam-nos aquele sorriso maroto do “sei exactamente o que isso é porque me está nas entranhas”.

Já tinha lido O filho de mil homens. Mais vivaço – recupera muita da linguagem tradicional que temos vindo a perder -,  menos triste. Igualmente brilhante, crítico, sensível. Mas a máquina de fazer espanhóis é daqueles livros que temos de parar a meio, fechá-lo, só para chorar um bocadinho. A velhice, essa coisa que nos parece sempre tão distante mas acaba por tocar a maioria, é ali descrita, desossada, de uma forma que poucos conseguirão fazer. Li-o depois de ter visto Amour de Michael Haneke e confirmei o que já pressentia: a velhice avançada, por muito bem de saúde que se esteja, é quase sempre mais angustiante do que alegre.

Destaco este excerto (mas são tantas e tantas as tiradas perfeitas deste livro):

“depois confessei-lhe, precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei ser já um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sido ela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis para novas realidades, para os outros. os outros, américo, justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria. esgotei sempre tudo na laura e nos miúdos, esgotei tudo demasiado perto de mim, e poderia ter ido mais longe. e eu não morro hoje, rapaz, não morro sem acompanhar o senhor pereira ao cemitério”.

Quem quer casar com a Carochinha?

O meu avô morreu quando eu tinha 11 anos. Poucos meses depois de me ter oferecido um serviço de louça de porcelana, “uma recordação que ficaria para sempre”, dizia-me, mesmo quando ele já fosse nunca mais. Na minha família é tradição. O enxoval das meninas, o meu e das minhas primas, começou a ser feito mais ou menos na mesma altura em que aprendemos a ler. Aos seis/sete anos vieram os primeiros lençóis e desde então a avalanche não mais parou. Era uma empreitada que se queria precoce porque depois “chegava a altura e comprar tudo custava muito mais”.

A “altura” de que as minhas avós, as minhas tias e a minha mãe tanto falavam era o casamento. “Tantas e tantas coisas para comprar”, comentavam entre elas, o melhor era começar logo cedinho. Eu olhava-as incrédulas. Quando me perguntavam o que queria no Natal ou no aniversário respondia “tudo menos coisas para o enxoval”. A verdade é que era horrível. Receber toalhas quando ainda se coleccionam cromos para a caderneta da Bela e do Monstro, desembrulhar um presente donde sai louça quando minutos antes se estava a sonhar com o Nick e o Kevin dos Backstreet Boys é um verdadeiro pesadelo. E depois a nítida diferença entre os rapazes e raparigas já na altura me deixava possessa. Nós, as futuras donas de casa, alombávamos com prendas chatas, eles recebiam aquilo que pediam.

Nunca percebi esta obsessão familiar pelo enxoval. Cheguei mesmo a odiá-la. Não que me faltassem os outros presentes, mas achava aquele dinheiro mal gasto. Afinal, não passavam de traquitanas que ficavam a ganhar pó no armário, traquitanas a que eu não ligava nenhuma, traquitanas que poderiam ser cd’s, livros, bonecas, brinquedos, jogos, roupa. A“ altura” que parecia tão próxima às mulheres da minha família para mim estava tão distante como o período paleolítico, fazendo com que tudo tivesse ainda menos sentido.

Nem eu nem as minhas primas casámos. Mas agora, que começamos a montar as nossas casas, todas temos “recordações para sempre”. Os relógios Swatch que o avô Zé me ofereceu foram avariando um a um, as botas que a avó Maria me comprava todos os Natais perderam capas, pele, forma e acabaram no lixo. O dinheiro que a avó São me deu, gastei-o em objectos que me devem ter feito muito feliz, mas que não faço ideia onde andam. Em contrapartida, na minha casa, moram o serviço de louça de porcelana que o avô Zé me deu antes de morrer, o faqueiro que a avó Maria já sabia ser a última prenda que me ofereceria e as mantas de retalhos feitas pela avó São.

A “altura” não é igual à que os meus avós idealizaram, mas eu que durante anos odiei a palavra enxoval, que durante anos não vi sentido nenhum em oferecer chávenas, pratos e copos a uma criança que ainda não sabia sequer comer de faca e garfo, sinto agora um conforto bom em estar na minha casa rodeada de “recordações”. Agora que chegou a “altura” continuo a achar que não faz sentido nenhum fazer o enxoval de um pingarelho com seis anos, mas dou o braço a torcer: é bom ter isto tudo aqui comigo. É bom ter bocadinhos de vocês espalhados pela minha casa. Tinham razão, não contando as lembranças aos milhares, estas foram mesmo as coisas que ficaram.

lençol mae

toalha avó sao

toalhas avó maria

Coisas que mudaram #10

Cheguei a Portugal a precisar urgentemente de um ginásio, correndo o risco de no Verão andar por aí a vazar piscinas (talvez esteja a exagerar, não muito por certo). Mas depois encontrei uma nova modalidade que se chama o “sobe e desce” do escadote e fiz do pano do pó o companheiro de todas as horas. Quando acordei hoje de manhã, doíam-me todos os ossinhos – e alguns músculos que desconhecia ter – e pensei: “vamos lá ter um tête-à-tête com a balança”.

E não é que isto dá resultado? Prova superada. Entre ser mulher de limpeza de obras e mal ter tempo para ingerir alimentos sólidos, já se foram três quilos. O meu problema é que ainda agora os perdi e já estou a pensar no que poderei comer a mais no fim-de-semana para compensar a intensa estafa física. Gorda.

Isto sempre foi assim?

Passei seis meses num país em que nada era impossível, onde o jeitinho se podia dar sempre, onde, se fosse para ajudar, todas as regras eram contornáveis. E agora estou mal habituada. Se calhar, até sensível de mais. Chego a Portugal e ou me tenho cruzado com as pessoas erradas, ou, no que toca ao atendimento ao público, somos um bocado a atirar para o bestinhas quadradas. Só hoje, foi isto:

1) Entro na padaria com um sorriso de orelha a orelha e digo bom dia aos três clientes e à empregada. A resposta foi um moita-carrasco.

2) Paro o carro à porta de casa para descarregar três caixas pesadas e o senhor motorista traseiro começa a apitar. Peço-lhe, por favor, para esperar um minuto ao mesmo tempo que me desculpo. Ele estica-me o dedo do meio e continua a apitar.

3) Poucos minutos depois, sigo para estacionar e um excelentíssimo taxista lisboeta mete a cabeça fora do carro e diz: “sua mula, és mesmo mula”. Apenas porque não cedi passagem quando era do seu lado da via que se encontrava o obstáculo.

4) Já no final do dia, às compras numa loja da Leroy Merlin totalmente vazia, peço à senhora da caixa para me deixar passar visto que a casa de banho era mesmo ali à frente e eu estava aflitinha, aflitinha. “Não, tem mesmo de ser lá ao fundo”. E lá fui eu a correr e aos pulos por aquele corredor infinito a fora. Para lá e para cá e depois outra vez para lá.

Isto tudo depois de ontem ter sido travada por uma qualquer parte sensata do  meu cérebro de mandar pelos ares a secretária da senhora que me atendia na EMEL. Mal educada e arrogante. Conhecem alguma forma de combater a má educação e a arrogância sem recorrer à violência? Se sim, elucidem-me que bem preciso.

Só me pergunto se isto sempre foi assim. Regras e mais regras. Rígidas, incontornáveis, às vezes estúpidas mesmo. Que loucura, que prisão, que carneirismo. A minha avó teria chamado a isto “rebanho de ovelhas mal cheiroso”.

Desejos

No fim-de-semana visitei uma plantação de desejos e andei à colheita. A artista plástica brasileira Rivane Neuenschwander pediu a várias pessoas que lhe confessassem as suas vontades e imprimiu-as nas tradicionais fitas que se vendem na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador da Bahía. O resultado foi uma parade cheia de cor e significado, onde cada visitante podia trazer para casa os desejos com que mais se identificasse.

caixa

Eu que a maioria das vezes me canso a ver museus, que sou sempre das primeiras a acabar e, qual criança irrequieta, a primeira a perguntar se ainda falta muito, passei mais de meia-hora a olhar para uma parede. Sou das palavras e se me dão palavras, ainda por cima palavras com as quais posso brincar, é como se estivesse no parque infantil.

A instalação está na Caixa Fórum, em Barcelona.

Estes foram os desejos escolhidos por mim e pelos meus amigos:

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Guiné: entre o paraíso e as saudades de Portugal

Saiu hoje no jornal Público um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer desde que sou jornalista. Daqueles como eu gosto, com estórias densas, com rostos que ilustram a realidade e entrevistas que ocupam a tarde inteira. A vida de Célia e Dinis deu uma cambalhota do 80 para o 8, mas nem por isso o casal deixa de ter esperança no futuro. Susana e David decidiram que não queriam continuar a definhar em Portugal e apaixonaram-se pelos guineenses. Carlos encontrou na Guiné o paraíso depois de ter passado por um desgosto de amor dos que fazem doer muito. E Lurdes gostava de fazer da Guiné uma Suiça em termos de dinheiro e um Brasil em turismo. Se quiserem, podem conhecê-los melhor aqui.

Foi a quando comecei a escrever esta reportagem que me chamei jornalista sanguessuga. Confirmou-se. Infelizmente, somos todos.

Ficam algumas fotografias, tiradas pelo Ricardo Venâncio Lopes, vejam lá se descobrem quem é quem.

Dinis e Célia

Dinis e Célia2 Dinis e Celia3

Dinis e celia4

David e susana 3 David e Susana

David e Susana 2

carlos carlos2

Lurdes Loureiro Lurdes Loureiro2

Lurdes Loureiro3

O maravilhoso mundo dos tapetes de entrada

Ou eu acabo de mobilar a casa rapidamente ou corro um sério risco de me tornar uma pessoa altamente desinteressante. Passei a tarde a fazer uma coisa espectacular: escolher tapetes de entrada. Digam lá que não é um sonho? Terminei-a como comecei: sem nenhuma escolha. Não me querem dar uma ajudinha? Ora vejam lá!

Sei que este blogue não tem nada a ver com isto, mas como não tenho outro e posso voltar para a Guiné já para o mês que vem, é irem-se aguentando.

tapete4 Tapete 1 tapete 3

tapete0

territorio pirataentiendeshome sweet homeel mundo a tus pies

one ticket black power

211 coisas que uma mulher esperta deve saber

O título deste livro saltou-me logo à vista, entre os milhares que estavam na prateleira. Se há ciência que não domino – e daria o dedo mindinho para dominar – é o comportamento padrão de uma mulher esperta. Se me falarem da mulher com o coração na boca, aí podemos até escrever uma tese de doutoramento com direito a case study, mas, infelizmente, ser uma mulher esperta é qualidade que não se apoderou de mim.

Voltemos ao livro. Toda lambona, lá vou eu a correr agarrá-lo, como se ali estivesse a solução para a minha falta de inteligência emocional. Abro uma página ao calhas que me diz que uma mulher esperta tem de saber cozinhar  flores comestíveis? Flores comestíveis? É verdade que hoje de manhã estive prestes a deixar de comprar uns sapatos em troca de uma frigideira de cerâmica, mas isto é demais até para esta fase, em que estou a tentar tornar-me uma dona de casa melhor do que péssima.

Descrente, ainda abri o livro dos homens. Fiquei também  a saber que uma das artes que um  homem esperto deve dominar é a de beber uma cerveja sem se sujar.

211 coisas que uma mulher esperta deve saber

cozinhar com flores