O meu avô morreu quando eu tinha 11 anos. Poucos meses depois de me ter oferecido um serviço de louça de porcelana, “uma recordação que ficaria para sempre”, dizia-me, mesmo quando ele já fosse nunca mais. Na minha família é tradição. O enxoval das meninas, o meu e das minhas primas, começou a ser feito mais ou menos na mesma altura em que aprendemos a ler. Aos seis/sete anos vieram os primeiros lençóis e desde então a avalanche não mais parou. Era uma empreitada que se queria precoce porque depois “chegava a altura e comprar tudo custava muito mais”.
A “altura” de que as minhas avós, as minhas tias e a minha mãe tanto falavam era o casamento. “Tantas e tantas coisas para comprar”, comentavam entre elas, o melhor era começar logo cedinho. Eu olhava-as incrédulas. Quando me perguntavam o que queria no Natal ou no aniversário respondia “tudo menos coisas para o enxoval”. A verdade é que era horrível. Receber toalhas quando ainda se coleccionam cromos para a caderneta da Bela e do Monstro, desembrulhar um presente donde sai louça quando minutos antes se estava a sonhar com o Nick e o Kevin dos Backstreet Boys é um verdadeiro pesadelo. E depois a nítida diferença entre os rapazes e raparigas já na altura me deixava possessa. Nós, as futuras donas de casa, alombávamos com prendas chatas, eles recebiam aquilo que pediam.
Nunca percebi esta obsessão familiar pelo enxoval. Cheguei mesmo a odiá-la. Não que me faltassem os outros presentes, mas achava aquele dinheiro mal gasto. Afinal, não passavam de traquitanas que ficavam a ganhar pó no armário, traquitanas a que eu não ligava nenhuma, traquitanas que poderiam ser cd’s, livros, bonecas, brinquedos, jogos, roupa. A“ altura” que parecia tão próxima às mulheres da minha família para mim estava tão distante como o período paleolítico, fazendo com que tudo tivesse ainda menos sentido.
Nem eu nem as minhas primas casámos. Mas agora, que começamos a montar as nossas casas, todas temos “recordações para sempre”. Os relógios Swatch que o avô Zé me ofereceu foram avariando um a um, as botas que a avó Maria me comprava todos os Natais perderam capas, pele, forma e acabaram no lixo. O dinheiro que a avó São me deu, gastei-o em objectos que me devem ter feito muito feliz, mas que não faço ideia onde andam. Em contrapartida, na minha casa, moram o serviço de louça de porcelana que o avô Zé me deu antes de morrer, o faqueiro que a avó Maria já sabia ser a última prenda que me ofereceria e as mantas de retalhos feitas pela avó São.
A “altura” não é igual à que os meus avós idealizaram, mas eu que durante anos odiei a palavra enxoval, que durante anos não vi sentido nenhum em oferecer chávenas, pratos e copos a uma criança que ainda não sabia sequer comer de faca e garfo, sinto agora um conforto bom em estar na minha casa rodeada de “recordações”. Agora que chegou a “altura” continuo a achar que não faz sentido nenhum fazer o enxoval de um pingarelho com seis anos, mas dou o braço a torcer: é bom ter isto tudo aqui comigo. É bom ter bocadinhos de vocês espalhados pela minha casa. Tinham razão, não contando as lembranças aos milhares, estas foram mesmo as coisas que ficaram.


